Educação, Outros Papos, Toronto

As lições de vida, dentro e fora do palco, dos artistas brasileiros no Cirque du Soleil

E lá vou eu para o Cirque du Soleil, de novo. Gostei!

“Viva! O que você vai contar para seus filhos?”

Quem me segue nas redes sociais sabe que dias atrás fui entrevistar a Danila Bim, o André Fellipe da Silva e o Fred Oliveira, os artistas brasileiros que estão no espetáculo VOLTA do Cirque du Soleil, em Toronto até o final de novembro.

O dia foi só emoção. Como não poderia deixar de ser, saí embasbacada da entrevista: por chegar perto de artistas tão talentosos, pelo físico de invejar deles, pela simpatia com que me receberam, por ter feito a entrevista nos bastidores do show. Saí de lá flutuando, me sentindo parte da trupe!

De volta para casa, vim matutando: como fazer esse bate-papo tão gostoso ter relevância para um mommy blog? O que esses três têm para ensinar a nós, pais e mães, que vivemos “no mundo real”? Eles, que nem filhos têm?

Bastante coisa, pessoal, e a frase da conta do Instagram do Fred, que abre este post, já diz muito sobre como eles podem nos ajudar a criar filhos mais capazes e felizes. Sem muito malabarismo envolvido.

O ato das argolas na ponte suspensa, em que Fred e André participam. De tirar o fôlego. (Foto: Patrice Lamoureux/Figurino: Zaldy)

Cirque du Soleil, bom para os olhos e para a alma

Para mim, um espetáculo do Cirque du Soleil é mais do que um show de circo bem feito. O que me fascina nesta turma é a liberdade de experimentar, de viver uma vida tão além do ordinário. A ousadia de ser ousado ao extremo e esfregar na nossa cara, expectadores aparvalhados, que é sim, possível. Esgarçar quase até rasgar os limites do corpo, de um jeito tão simplista e pueril, que a gente até acredita que possa fazer também.

Os shows do Cirque du Soleil fazem acordar a criança marota e arteira que vive dentro de cada um de nós, mas que passa os dias dormindo, em estado de coma, coitada, anestesiada pela mesmice do dia a dia. Você sai do show feliz, com a alma saltitando de alegria. Eles trazem de volta a esperança de que é possível, seja lá que possível seja esse.

Imagine minha alegria, então, quando recebi o convite para entrevistar não só três artistas da maior companhia de circo do mundo, mas três brasileiros!

Cercada de estrelas: Fred e Danila. Só faltou o André…(Foto: Alessandra Cayley)
Agora, sim! André em cena, com Fred. Esta foto é para as mamães que seguem o blog. Vai, pode dar um zoom no tanquinho do Fred! 😉 (Foto: Alessandra Cayley)

Pronta para o show?

Quando sentei para conversar com Fred, de Porto Alegre, e Danila e André, ambos do interior de São Paulo, estava toda preparada, com quatro folhas de perguntas e um esquema pré-formatado na cabeça para os posts que sairiam da conversa.

No final, porém, foi quase tudo por água abaixo. Sim, a gente quer saber o que eles comem, como vivem, como chegaram até aqui, se têm saudade do Brasil, etc. Mas a coisa mais importante que saiu do encontro foi a lição de vida que estes três têm para dar. Percebi, em todos eles, uma repetição de padrões e princípios, que é talvez o que os fizeram os escolhidos para integrar tão seleto grupo: a flexibilidade, não só física, mas em todas as suas formas, a tranquilidade de viver um dia de cada vez e a importância da família, especialmente a figura materna na vida de cada um deles.

Danila, a veterana do grupo, saiu do Brasil em 2007. Dançarina desde os 12 anos, se apaixonou pela arte circense quando ingressou na Escola Livre de Teatro, lá na minha terra querida, Santo André, quando tinha apenas 18 anos.

Ela já está no Cirque du Soleil há sete anos mas havia trabalhado em outros circos, dentro e fora do Brasil. Hoje, com 30 anos, já conheceu o mesmo número de países e fala da pátria como uma coisa distante: “Eu não tenho saudade do Brasil: tenho saudade da família, dos amigos. Quando a gente sai, é normal a gente achar que precisa daquilo. É sempre gostoso voltar mas, hoje em dia, não é uma coisa que me torture”.

A coisa muda de figura quando o assunto é comida brasileira: “Comida foi a coisa que mais senti falta quando saí do Brasil”, relembra, saudosa. “Adoro arroz, feijão, batata frita”.

O mesmo quando fala da mãe. Danila a menciona em diversas partes da conversa, sempre de modo positivo: “Minha mãe sempre me apoiou. Mesmo quando eu saí de casa para trabalhar em circos pequenos no Brasil”.

Nesta hora, gelei, colocando-me no lugar de dona Lourdes, vendo a filha partir com uma trupe de circo, sabe lá para onde, e por quanto tempo. Me peguei orando, mentalmente: “Alicia, minha filha, escolha uma profissão sem muito risco e que não precise viajar muito, pode ser?”

Danila ainda não tem filhos, mas deseja tê-los. Perguntada sobre o que faria se seu filho quiser seguir o mesmo caminho que a mãe, respondeu: “O que fizer meu filho feliz…Tem muitos pais que são de circo, de arte, e querem impor [o mesmo destino aos filhos]. Quando você percebe uma facilidade na criança, é normal ficar empolgado, querer ajudar mas, desde que isso não seja uma imposição, está tudo bem”.

A mãe de Danila já viu a filha se apresentando no palco do Cirque du Soleil, quando o circo esteve no Brasil com o show Quidam. Se ela gostou? “Ah, sim. Ficou toda empolgada! Mãe, né?”, brinca Danila.

Mas dona Lourdes ainda não viu o que a filha anda aprontando agora, no show VOLTA.

Neste, Danila se apresenta sozinha, quase no final do show, no ato conhecido como hair suspension. A artista dança, faz acrobacias, piruetas, é arrastada pelo palco, levitando do chão como um ser etéreo, de outro mundo. É suspensa até o pico da tenda, e mais acrobacias e piruetas, lá no alto. Faz tudo isso presa apenas por uma corda conectada numa argolinha de metal, enrolada em seu cabelo.

Assistí-la serpenteando palco afora é ao mesmo tempo desconcertante e fascinante. Assim como dá vontade de virar a cara para o lado, porque você não vai querer presenciar o momento em que o couro cabeludo de Danila vai descolar de sua cabeça (e você tem certeza de que isso vai acontecer), não dá para desgrudar os olhos dela, com seus movimentos delicados e precisos e uma concentração e calma dignas de Buda. O ato de Danila é hipnotizante.

Quando soube que ia entrevistá-la, não sei se fiquei mais feliz pela oportunidade em si ou pelo fato de que poderia perguntar à Danila qual seu segredo para ter um cabelo forte deste. Imagina, eu com o cabelo ralinho que tenho! Já me vi estocando potes do creme milagroso que ela iria me indicar.

Mas, para minha decepção, a resposta foi um simples e sonoro “nada”. Danila diz que não usa nada de especial para manter os cabelos saudáveis para, literalmente, aguentar o tranco. Nem xampu ela usa! Abusar do cabelo, só no palco mesmo. Fora, não usa secador, não faz chapinha, nada, porque segundo ela, isso é o que o desidrata, quebrando-o. Comer bem e dormir direitinho são os dois segredos de Danila. “Mexe com tudo: cabelo, unha. Tem que estar integradinha”.

“Dói?”, foi a outra pergunta. “Sim. Tudo o que você está aprendendo no circo, dói”, responde ela, e brinca, dizendo que as pessoas se preocupam muito com o seu cabelo mas se esquecem das outras partes, “pescoço, costas, que doem mais do que o cabelo”. Danila diz que é preciso treinar muito para que o desconforto e a dor desapareçam e deem lugar para a tranquilidade e o domínio da técnica que esses artistas demonstram no palco.

Talento ajuda, mas não te segura

A artista não quis admitir mas Fred entregou: ela é uma das que mais treinam no circo. Apesar de esbanjar talento, a brasileira não deita em berço esplêndido. Chega três horas antes do espetáculo, treina todos os dias. Foi ela quem trouxe o ato para o Cirque du Soleil e não tem substituta. Ficou doente, se machucou, não tem show.

Fred também gosta de treinar. Este porto-alegrense, que saiu do Brasil para ingressar no Cirque du Soleil, tem 28 anos de vida e 20 de profissão como ginasta. A estréia no circo, dia 27 de abril deste ano, ainda está fresca na memória do atleta. Fred lembra que “deu nervoso”, tendo que se apresentar para uma platéia de mais de duas mil pessoas. Mas a preparação que trouxe dos tempos de ginasta ajudou. “Tem pressão, mas você se diverte mais. Se sai alguma coisa errada [“e sempre sai”, complementa Danila], dá para consertar, para interagir mais com o público. Numa competição, é só tu consigo mesmo”.

E se cair? “Levanta, faz pose e continua!”, responde Fred.

Resolvi que este vai ser meu mantra, daqui para a frente.

Fred (à frente, no centro) e André (logo atrás) com a turma do parkour. (Foto: Patrice Lamoureux/Figurino: Zaldy)

O acrobata saiu de casa já grandinho, com 24 anos, por causa de um contrato de trabalho com um clube de São Paulo, e lembra a tristeza da mãe, dona Ivone, ao ver o filho partir. “Mesmo com o filho grande, já com barba na cara”, brinca. Como se precisasse, Fred justifica o carinho, dizendo que é porque ele é o caçula da família e que a mãe ainda é muito apegada a ele. “Coração de mãe é assim mesmo”.

Quando encerrou o contrato com o clube de São Paulo, Fred voltou para Porto Alegre mas, para a tristeza de dona Lourdes, só ficaria por lá apenas três meses. Havia sido chamado para trabalhar num tal de Cirque du Soleil, e agora iria para ainda mais longe.

“Gostar, não gostou, mas mãe tem que apoiar o filho porque depois, quando as oportunidades passam, tu segurou o teu filho, ele não curtiu, não conheceu lugares, não realizou seu sonho”, diz Fred. E complementa: “Por mais que doa, deixe ele voar, deixe ele ir. Especialmente a gente [com a profissão que tem], o corpo não vai deixar você trabalhar até uma idade avançada”.

André concorda. O mais novo da turma, com 24 anos, foi o que menos falou. Os artistas não ficaram comigo o tempo todo da entrevista, se revezando entre outros compromissos. Mas quando falou, mostrou a maturidade de quem teve que se virar cedo na vida.

O brasileiro também é ginasta, e apesar de ser o mais novo entre os três, tem um currículo de vida e carreira invejáveis (na ginástica, ele fazia os seis aparelhos: argolas, salto sobre o cavalo, cavalo com alças, barra fixa, solo e barras paralelas, com especialidade nas duas últimas modalidades), com 20 anos de profissão, tendo saído de casa com apenas 12 anos de idade.

“Sozinho?”, perguntei. “Sim. A primeira vez que saí de casa foi para ir para São Caetano [ABC Paulista]. Morava com outros atletas numa república”, explica. “Fiz meu primeiro arroz com 13 anos de idade”, relembra.

Ele diz que sempre voltava para casa, mas as visitas foram ficando cada vez mais espaçadas. E a mãe, nessa história? “Ela se adaptou, mas ainda sofre. Toda vez [que ele parte], sempre chora”.

Dona Carmélia, a mãe de André, nunca viu o filho se apresentar no Cirque du Soleil. “Ela não tem muita consciência do que é”, diz o acrobata. Fiquei imaginando sua reação ao ver o filho fazendo as estrepolias que faz naquele palco.

André e Fred são da turma do parkour (treino para se livrar de obstáculos usando apenas o corpo) e swiss rings (argolas). Eles entram em cenas diversas vezes e se apresentam juntos, mas não chegam a interagir em cena. Um dos momentos mais impressionantes é a apresentação nas argolas, que pendem de uma ponte que toma conta do palco. É tanta precisão nos movimentos e tamanha rapidez na execução, que fica difícil acreditar que tudo aquilo esteja sendo feito por gente como a gente. Quer dizer, quase como a gente.

André e Fred nas argolas que pendem da ponte. (Foto: Patrice Lamoureux/Figurino: Zaldy)

Penei para tirar foto com eles, estava me sentindo a balofa. Mas não tem jeito, mesmo se eu estivesse em plena forma, esses meninos (olha a intimidade) são o cúmulo do sarado ao quadrado.

Me escondendo atrás da Danila para tirar foto! (Foto: Alessandra Cayley)

“Não é opção; é trabalho”, justifica Danila. Além de tudo, são humildes, e determinados. E é esta a grande diferença entre eles, eu e o resto da humanidade.

Danila levitando e encantando…(Foto: Patrice Lamoureux/Figurino: Zaldy)

O Cirque du Soleil oferece refeições para todos os seus funcionários, preparadas por chefs que viajam com a trupe. “Tem de tudo, até fritura. Doce, tudo, mas é você quem escolhe”, explica Danila.

É, também, multicultural, para agradar os mais de quatro mil funcionários do circo, vindos de mais de 50 países. Só no VOLTA, são cerca de 120 pessoas, de mais de 25 nacionalidades diferentes.

Fiquei surpresa em saber que o circo é tão liberal na dieta de seus artistas. Imaginava que eles seguiam uma dieta imposta, espartana, mas não. Comer de forma saudável e eficiente acaba sendo uma escolha natural de cada artista, embutida na responsabilidade de se manter ao par com a equipe. No caso de Danila, ela não come “nada enlatado, nem de caixa”, e tanto ela como André e Fred disseram que não há nada melhor do que o nosso bom e velho arroz e feijão para suprir as energias.

Outro momento de Fred e André com o pessoal do parkour. (Foto: Patrice Lamoureux/Figurino: Zaldy)

Mesma pátria, mesmo palco

Os três brasileiros se conheceram no VOLTA. Chegaram sozinhos, cada um a seu modo: André, por contatos que tinha no Cirque du Soleil, Fred por processo seletivo e Danila, porque já havia trabalhado para o circo, anteriormente. Ela explica que indicação é sempre bom, porque ajuda o circo a saber se o artista é confiável, mas não é garantia de emprego, nem de ficar. “Às vezes, o atleta é incrível, mas é difícil trabalhar, não tem tato”.

Se depender disso, esses três vão longe. Em nenhum momento da entrevista senti um sequer de esnobismo, estrelismo; só camaradagem. À certa altura, falando sobre treinos, Fred diz: “Não querendo puxar o saco, mas ela é uma estrela”, referindo-se à colega de trabalho.

Mesmo palco, tetos diferentes

O circo é quem banca a moradia de seus funcionários, oferecendo a opção de hotel ou Airbnb. Danila, já cansada de hotéis, está numa casa, que divide com o namorado, o palhaço do circo. André, também. Ele é o único que trouxe alguém do Brasil com ele, a namorada Débora, que conheceu meses antes de ingressar na trupe. “A sequestrei”, brinca. Já Fred escolheu um hotel no centro da cidade, e me parece que não tem ninguém. Candidatas?

Os três não têm muito tempo livre, com uma agenda de seis a oito shows por semana. Na hora do descanso, querem explorar a cidade em que estão ou não fazer absolutamente nada.

Um dia de cada vez

Perguntados sobre o futuro, Fred responde: “Ótima pergunta”. Danila tem vários planos na cabeça mas, por enquanto, é só Cirque du Soleil mesmo. E André: “Quero aquietar, em casa, no Brasil, em Americana mesmo, mas como eu nem sabia que ia estar no Cirque du Soleil hoje, tudo pode acontecer”. A ambiguidade em sua resposta  revela bem como esses artistas nômades de circo vivem seus dias: um de cada vez.

Um espetáculo do Cirque du Soleil pode ficar em cartaz por dez, quinze anos, mas os artistas têm contrato de dois anos de duração, podendo ou não ser renovado. O artista também pode pedir transferência para outro show e até outro ato, se quiser.

André, Fred e Danila sabem que ficam com o circo até 2018. Já passaram por Gatineau, na província de Quebec, por Ottawa, em Ontário, e agora estão em Toronto, até o final de novembro. Daqui, vão para Miami, mas antes umas férias, para ver quem? As mães, claro!

Ao final, cada um deixou uma mensagem carinhosa para os pais que acompanham o Alicia e Outros Papos:

André e Fred enfatizaram a importância de um esporte na vida das crianças. “A ginástica artística é a melhor modalidade para noção corporal, te dá a base para qualquer outro esporte”, aconselha André, respaldado pelo companheiro brincalhão: “Coloca [seu filho] em alguma atividade para [ele] descobrir o corpo e não ficar quebrando a cama!”

Danila aconselha: “Invista na loucura de seus filhos. Porque mesmo que eles acabem não sendo artistas circenses ou artistas, a mentalidade da pessoa que estuda arte, que está envolvida nisso, se abre de uma tal maneira que ela vai ser um advogado melhor, um médico melhor, uma pessoa melhor…O futuro é muito relativo. Se você ver que ele tem uma vocação, não breque seu filho. Um dia ele vai usar.”

Já vejo estes três sendo excelentes pais.

Obrigada a Assessoria de Imprensa do Cirque du Soleil pelo convite para a entrevista, à Danila, André e Fred por encontrarem um espaço na agenda e me receberem tão bem. Já estou com saudades!

Obrigada, também, a todos os meus amigos que me mandaram sugestões de perguntas para a entrevista, em especial à pequena Marcela, com apenas seis anos de idade, uma autodidata aficionada por ginástica olímpica. Mamá, lembre-se do conselho da Danila: “Talento ajuda, mas é preciso treino, treino, treino”. Quem sabe a gente não vai te ver no palco do Cirque du Soleil, um dia? Quero estar viva para vê-la, aplaudí-la e entrevistá-la! 

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