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Educar filhos bilingues – o que dá certo em casa

Mommy, can I put the chupeta in my boca?

Um dos meus maiores receios em ter filho no Canadá era a questão do idioma. Eu amo a língua portuguesa. Para mim, é essencial que filho meu fale a minha língua. Sempre ouvi dizer o quanto é difícil fazer a criança falar uma segunda língua, ainda mais se não houver muita exposição à ela, como no nosso caso, onde só eu falo português em casa.

Também ficava pensando se não seria muito esforço para ela aprender dois idiomas ao mesmo tempo. Será que não vai retardar a fala, atrapalhar na escola?

Pesquisei bastante, li muito, conversei com outras mães na mesma situação e tudo o que aprendi fortaleceu a certeza de que eu só estaria fazendo bem à minha filha expondo-a a um segundo idioma. Então fui em frente.

Aqui, um pouco do que aprendi e o que tem dado certo ou não, até o momento:

1) Exponha seu filho à nova língua o máximo que puder 

No Canadá, a licença-maternidade dura um ano e neste tempo que ficamos em casa, fiz questão de cercá-la de língua portuguesa: só falava com ela em português, só ouvia músicas brasileiras. Cantava muito e dá-lhe Galinha Pintadinha, na TV! Deu certo. Hoje, a Alicia entende absolutamente tudo em português, até se aventura a cantar!

(Desculpem pela péssima qualidade do video, estou aprendendo e não tive tempo de melhorá-lo, sorry!)

2) Quando ele for para a escola, não vai conseguir se comunicar

Quando ela foi para a creche, tive receio de que não conseguisse se fazer entender. Bobagem. De uma maneira ou de outra, a criança entra em contato com a língua nativa, seja saindo com os pais, na escola, observando os amigos (no meu caso, meu marido fala em inglês com ela).

3) A criança demora mais para começar a falar

Verdade, mas com um grande porém. Minha sogra (tem que ser!) sempre me criticava (até hoje!) por falar com a Alicia só em português. Eu cheguei a ponderar que ela estivesse certa, porque a Alicia começou a falar bem tarde, com dois anos e dois meses. Antes disso, eram só monossílabos, como o caso da tal da “mamá“. Mas depois disso, a menina desembestou e não parou mais! Nas duas línguas e não necessariamente uma de cada vez!

A demora para começar a tagarelar é porque a criança tem mais informação para processar, o que demanda mais tempo. O esforço extra tem um lado positivo: estudos indicam que crianças bilingues têm raciocínio mais rápido do que aquelas que só falam uma língua. Isto porque, além da aprendizagem de dois (ou mais) idiomas em si, também precisam aprender a escolher o idioma apropriado para o momento ou transitar entre um e outro na mesma conversa. É o caso da Alicia. Ela sabe que o pai fala em inglês e eu falo em português. Quando, por exemplo, eu peço em português para ela dizer algo para o pai, ela o faz em inglês.

4) Falar duas línguas (ou mais) confunde a cabeça da criança

Mito. Quando a Alicia mudou do maternal para o pré (com dois anos e meio), a primeira coisa que uma das tias notou foi a qualidade do vocabulário dela, em inglês. Ontem, ela ainda comentava isso comigo, sobre a complexidade das palavras que a Alicia usa e a clareza na pronúncia, que é de espantar.

Ela está na fase de misturar os dois idiomas, e sai cada pérola! Mas sabe quando pode usar os dois ou quando só precisa de um. Em casa é um tal de “I vai dormir”, “I gosta de feijão”, “Let’s go to our casa” e assim vai.

Dias destes, eu disse “povo”, me referindo a algumas pessoas na nossa frente. Ela retrucou dizendo que não era povo, e sim “people” e eu não saquei porque ela não estava entendendo que era a mesma coisa. Até que ela parou, pensou e me explicou que eles não eram “peixinhos”. Ela havia entendido “polvo”!

5) Forçar a criança a falar sua língua

Roubada. Houve um tempo em que 80% do discurso da Alicia era em português, mas à medida em que ela foi crescendo e entendendo que só a mamãe o usava, ela meio que perdeu o interesse em aprendê-lo. Eu falava em português, pedia para responder e ela, quieta.

Nunca cheguei a brigar com ela, mas experimentei algumas táticas furadas, como não falar com ela até ela responder em português ou ficar repetindo a palavra até ela dizer o mesmo. Stress inútil nas duas.

Um belo puxão de orelha da minha amiga e terapeuta Rosangela foi o que me abriu os olhos para o fato de que o inglês é a língua mãe da Alicia e pronto. Ela só vai aprender português se ela quiser e não porque eu quero. Sim, a língua portuguesa é linda, saber outro idioma abre portas, melhora o raciocínio e, no nosso caso, é questão de segurança, pois quando formos ao Brasil ela vai poder entender o que acontece à sua volta. Mas ela só vai aprendê-lo se quiser, não tem jeito.

Uma amiga nossa em comum mora na Itália e tem uma filha. Ela também tentou que a menina aprendesse português, sem muito sucesso. Até que, já adolescente, a filha vai para o Brasil e se apaixona pelo país. Quis aprender a língua. Como já havia sido exposta ao idioma durante toda a vida, ele estava lá, adormecido dentro dela. Não demorou muito para que a bambina deslanchasse e começasse a falar em português fluentemente.

Ao saber disto, relaxei e adotei uma aproximação mais tranquila. Hoje, eu ainda só falo com ela em português, dentro ou fora de casa, perto ou longe das pessoas (incluindo minha sogra), mas não esquento em qual língua ela responde. Às vezes, sai tudo em inglês, outras um meio a meio ou com palavras em português que me surpreendem.

O legal é que ela está entendendo absolutamente tudo em ambas as línguas. Eu falo com ela na mesma velocidade com que falo com um adulto. Aliás, o português dela está melhor do que o do pai, em contato com a língua há mais de uma década!

E você, também está no mesmo barco?

Dois blogs excelentes sobre o assunto:

Filhos Bilingues

Multilingual Parenting (em inglês)

 

 

 

 

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