Desabafo, Outros Papos, Primeira vez, Toronto, Virei mãe

O sucesso do Brewfest e o meu fiasco como mãe

 

E daí eu fui no tal do Brewfest, como havia comentado, aqui. Na prévia para a imprensa, quase nenhuma imprensa presente, acho que só uns blogueiros gatos pingados. Mas foi bom: deu para experimentar várias cervejas de diferentes fabricantes, tirar foto, prestar atenção nos detalhes.

Tivemos uma horinha do lugar só para a gente, antes de abrir para o público; e que lugar: o evento foi realizado num dos saguões do Exhibition Place, um complexo  lindo de prédios históricos no pé do lago Ontário, no lado oeste da cidade. A iluminação, toda em vermelho, com muito sombreado, realçava as construções antigas; colírio para os olhos, já que saguão de eventos é uma chatice, sempre tudo igual. Gostei.

Também gostei da seleção de cervejas, mais de 150, vindas de 40 cervejarias das províncias de Ontário (onde estamos) e Quebec. Consegui provar seis tipos diferentes, sendo a favorita da noite, a Cobblestone Stout, da Mill Street, que funciona dentro do Distrito Histórico da Destilaria. Cerveja preta, bojuda, aromática, com notas de chocolate e nozes. O pessoal do estande disse que ela fica uma delícia a temperatura ambiente, misturada com chocolate quente.

Eu posso imaginar a cara de horror que os tomadores de cerveja profissionais estão fazendo ao ler isto, mas dá licença que esta é gourmet? É também sazonal, especialíssima, só fabricada durante os meses frios (que perfazem quase todos os doze meses do ano, por aqui, haha!).

O ingresso para o festival, que durou dois dias, custou $25 para dias separados, ou $40 para todo o evento, se comprado antecipado, online, o que dava direito a três degustações. Se quisesse mais, podia-se comprar mais bucks, ou créditos, depositados num chip da pulseira eletrônica, utilizada para controle de entrada e saída do lugar e para comprar bebida. Prático e conveniente. Só não gostei das filas quilométricas que se formaram nos caixas para reabastecimento de créditos. Também do preço das degustações, entre três a cinco bucks (cada buck = um dólar), dependendo do tipo de cerveja e do tamanho da amostra: doméstica ou importada, 4oz (aprox. 120 ml) ou 8oz (aprox. 240 ml).

Voltando às degustações, o segundo lugar no meu ranking ficou para a québécois Péché Mortel, da microcervejaria Dieu du Ciel, de Montreal. Outra cerveja preta, esta com notas de café. Dava para sentir, mesmo, o cheirinho de café vindo dela.

Cerveja preta com notas de café, da microcervejaria Dieu du Ciel, de Montreal.

Também tomei duas IPA (Indian Pale Ale) mas só gostei de uma, que foi a primeira da noite, escolhida pelo nome: Two Nights Stand (Somente por duas noites), da microcervejaria Innocente, de Waterloo, a uns 100 quilômetros de Toronto. A outra, da Mill Street, não curti: muito forte para o meu gosto.

Acho, também que, a esta hora, o clima não estava mais para degustação: estava com o Derrick e a Alicia a tiracolo, o que eu achei que faria a noite ainda mais divertida, mas acabou virando um fiasco e uma lição: tem lugar que não é para crianças, mesmo.

Quando eu pedi a credencial para cobrir o evento, não havia me atentado para o horário que seria (das 18h às 22h), mas ainda assim, pensei em levá-la, para que o maridão também pudesse participar. Fiquei de checar o local, o ambiente, antes de dar o sinal verde para eles fossem ou não.

Em termos de limpeza, número de banheiros, o lugar era perfeito. Comidinhas, nem tanto: da meia dúzia de food trucks presentes, não se salvou nenhuma que fosse do meu agrado. Comprei um poutine para mim (fritas com queijo e molho de carne por cima) de um deles, e somente fritas (com umas rodelas de pepinos, acompanhando) para a Alicia, de outro.

Clássico canadense, poutine, em versão comida barata de cachorro…

Foi tudo para o lixo. O primeiro estava com um gosto insurportável de condimento que imita carne. O segundo veio com as batatas estorricadas, fritas em óleo velho. Nem os pepinos se salvaram: haviam sido marinados em vinagre. Detestei. Ainda bem que eu tinha uma maçã na bolsa, e foi isso que a Alicia beliscou durante a hora que ficamos por lá, e que me salvou de parecer uma mãe mais irresponsável ainda: além de levar a filha num lugar daqueles, ainda faz a menina comer aquelas porcarias! Que mãe é esta?!

Eu deveria ter lido os sinais: na semana, tudo contribuiu para que a Alicia não fosse: ela teve gripe com febre, estava com nariz escorrendo. O festival seria à noite, numa sexta-feira, último dia de escola. Eu sei que ela volta super cansada. Mas, ainda assim, cedi quando meu marido disse que ela queria ir ver a mamãe…

Quando chegaram ao Brewfest, ela correu para os meus braços, toda empolgada com o zum zum zum, claro. Mas logo botou as mãozinhas no ouvido, porque o som estava “muito alto, mamãe”. Meu coração deu uma rachadinha: soube, ali, que havia feito bobeira.

“Som muito alto, mamãe”. O sentimento de culpa começando a me corroer, ali mesmo…

Nem preciso dizer que ela foi a atração do lugar, com direito a foto e ser convidada para brincar na barraquinha de jogos, cortesia da casa. Na mesa comunitária, quando estávamos comendo, todos sorriam para ela mas, tenho certeza, me julgando, feito sogra, por dentro.

Nem meia hora depois que eles chegaram, já havíamos decidido que não iríamos ficar. Era só o tempo de ela comer e o papai tomar uma cerveja e partiríamos, mas nem isso ele conseguiu direito, coitado. Enquanto estivemos por lá, a única coisa que ele fez foi se preocupar com o julgamento alheio, ir no carro duas vezes (deixar meu computador e as nossas jaquetas e voltar, porque esqueceu o peniquinho dela), pegar fila para comprar uns tacos meia-boca e pagar um mico, quer dizer, um chimpanzé, tendo que sair perguntando, de food truck em food truck, se eles tinham leite de chocolate!

A punhalada final no meu peito, já dilacerado, foi quando eu tentei colocar a minha blusa nela (ela veio só com a jaqueta de frio e camiseta: a tia da escola deve ter esquecido a blusa dela em algum lugar e o Derrick não sabia). Como ficou muito grande nela, óbvio, eu a coloquei por baixo da camisetinha dela. Ficou meio estranho, mas pelo menos não iria cair dos seus ombrinhos.

Assim que eu terminei, olhei para ela, sorri, mas não recebi sorriso de volta: ela olhou para baixo, fitou o modelito, olhou para mim de novo, sem graça. Mesmo comigo dizendo o quanto ela estava linda com a blusa da mamãe, ela sabia que não estava. Enrolou para sair do banheiro. Ela não queria ser vista daquele jeito. Minha filha de três aninhos já tem senso de ridículo. Fiquei pasma e tããããããão culpada…

Com a blusa da mamãe, por baixo…Eu achei que ela estava linda, mas ela, não. Nem quis sair do banheiro, de vergonha…

A caminho da saída, meu marido finalmente conseguiu engolir uma cerveja.

No carro, indo para casa, cansada, um mar de asneiras passou pela cabeça: vai que acontece um acidente? Eu postei nas redes sociais que bebi meio litro de cerveja (o que não aconteceu, foi brincadeira). Já estou vendo as manchetes: “Blogueira brasileira enche a cara em evento e bate o carro com filhinha de três anos dentro.”

Aprendi a lição: tem lugar que, mesmo não sendo para criança, fica engraçadinho levá-los. Festival de cerveja no meio da tarde, outdoor, com boas opções de comida e chocolate quente, como o Roundhouse, que ela amou, pode ser. Festival de cerveja numa sexta-feira à noite, com décor inferninho e junk food para acompanhar, não tem graça, para nenhuma das partes.

 

 

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