Desabafo, Outros Papos

E o dia de jogar a toalha chegou…

Hoje meu coração está assim: beco cinzento, sem saída…mas nunca vou deixar de acreditar que há um sol se escondendo por trás das nuvens.

Sabe quando você compra aquele xampu que custa o olho da cara, mas que todo mundo diz que é maravilhoso e que se você usar, vai ficar com madeixas de modelo, de comercial de TV mas, depois de uma semana, seu cabelo está a mesma bosta: oleoso, mirrado, eriçado e, o pior, agora você está dura e vai ter que justificar a gastança pro marido?

Pois é, eu estou assim: eu acreditei em propaganda enganosa, de novo. Sim, comprei o tal do xampu, mas também acreditei em outra mentira pior do que essa: de que dá pra fazer tudo, e tudo sozinha. No tal do “você consegue”.

Hoje eu concluí que xampu não faz milagre e que essa estória de “eu consigo fazer tudo sozinha” é a pior verdade que alguém pode comprar.

Hoje está sendo um dia muito difícil pra mim porque, finalmente, criei coragem para escrever este post, também para dizer adeus a outros projetos que encheriam meu ego de satisfação mas que estavam me levando à loucura, obesidade, depressão e um possível ataque do coração, se eu continuar neste ritmo.

Hoje eu finalmente estou jogando a toalha.

Para contextualizar, algumas das minhas atribuições, sem colocar aqui esposa e mãe: eu faço a parte contábil da oficina mecânica do meu marido, também cuido da parte de propaganda, como mídias sociais e anúncios, além de ser a recepcionista e faxineira do lugar. Ah, e quando preciso, faço entrega dos carros pra clientes e os empurro pra dentro e pra fora da oficina quando eles chegam tão enguiçados que nem ligam. Deste último, eu nem reclamo, porque me ajuda a fortalecer meus biceps, já que não tenho tempo de ir pra academia!

Fora isso, sou uma jornalista que virou blogueira, aqui e em outro blog, o Visite Toronto, meu ganha-pão. Ambos têm mídias sociais, também. Então, ao todo, eu controlo, deixa ver…duas contas no Twitter, duas contas no Instagram, três perfis no Face, fora o meu pessoal, que eu nunca atualizo. Quanto dá? Sete contas em três plataformas diferentes? E tem contas de e-mail, também.

E porque eu achei que a vida estava tediosa demais e porque eu estava com uma saudade danada de escrever matérias para revistas, eu inventei de fazer o quê? Sim, mandar sugestões de pautas para antigos contatos meus, e não é que consegui que duas delas fossem aprovadas?

Ah, também resolvi virar vegetariana, o que me faz ficar de cabelo em pé escarafunchando a Internet para encontrar receitas saudáveis, fáceis, gostosas, à prova de criança enjoada e que não levem mais do que 10 minutos para serem feitas, porque eu não tenho tempo. Daí, quando encontro uma, lá vou eu postar tudo: a receita, o antes, durante e depois, com fotos, áudios, vídeos, caras e bocas, minhas e da família, porque, ai, ai, ai se eu não o fizer. Todo mundo faz, todo mundo consegue, por que eu não? Ah, e também quero dividir tudo com o pessoal lá do WhatsApp, claro!

CHEGA!!!!!! Parei. Para o bonde porque eu quero descer e, se não parar o troço, estou me jogando.

Outra questão é que faço tudo sozinha, quer dizer, eu e meu marido, que é um santo. Empregada no Canadá é luxo, não dá para bancar; família não temos: a dele mora longe, a minha mais ainda. Somos apenas nós três e nossos dois gatos, and that’s it.

Parei.

Chega uma hora que a gente realmente precisa parar; reavaliar o plano, se houver um, redirecionar o Titanic antes que ele dê de fuça com o iceberg. Antes que a gente morra e aí vai vir neguinho no seu enterro dizendo o quão boa você era, antes que você vire história pros filhos que ficaram pra trás. Não é isso o que eu quero.

Eu adoro a expressão em inglês “Walk the talk”, algo como o famoso “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” ou numa tradução literal, ande de acordo com o que diz.

Para mim, não adianta vender essa imagem de mãe poderosa, blogueira antenada, jornalista esperta nas redes sociais, e andar por aí parecendo um zumbi, uma sombra do que foi, uma caricatura triste de si mesma. Não adianta se descabelar de chorar no carro antes de pegar a filha na escola e, quando vê-la, abrir aquele sorriso amarelo, tentando disfarçar. Aliás, amarelo mesmo, de tanto tomar café pra ver se aguentar ficar de pé tendo dormindo só três horas na noite anterior, e na outra noite, e na outra noite também.

Não adianta o xampu funcionar, e deixar o cabelo lindo como prometeu, se a cara, exausta e com olheiras, não combina. Não adianta fazer o que ama se o volume do que se está fazendo é tanto, com tão pouca qualidade, que não há traz mais brilho pro olhar.

Eu amo escrever, amo, é minha maior paixão depois da minha filha. Amava ser jornalista e, mesmo sem exercer a profissão, vou morrer sentindo-me jornalista. Por isso, quando criei este blog, tinha a ideia de fazer os posts com jeitão de matéria, com fontes, entrevistas, fatos, mas enfatizando o lado humano. No final, não saiu nem uma coisa nem outra! Eu comecei a escrever para o Visite Toronto na mesma época que o Alicia e Outros Papos nasceu e este primeiro me dá retorno financeiro, daí já viu, né? Meu blog pessoal ficou a deus dará, alimentando-se dos restos do Visite Toronto!

Há quase dois anos, minha vida tem sido correr de um projeto para outro, tentar organizar a agenda e a semana para que eu consiga dar tempo pra tudo, mas parece que nem a semana e nem a agenda têm dias e páginas suficientes para acomodar tamanha loucura.

E eu nem cheguei a falar da vida pessoal e familiar, arrastando filha e marido para eventos, a fim de maximizar o tempo, mesclando diversão com trabalho. Mas será que dá para conciliar os dois, o tempo todo?

Há meses, eu venho tendo ataques de pânico e armando barracos na frente da minha filha, por qualquer coisa, o que inclui sair aos berros do carro pra tirar satisfação com uma mulher que quase bate na traseira do meu carro só pra pegar a vaga que eu estava esperando (calma aí, acho que este barraco foi válido, não?).

Estou sempre apressando a minha filha de quatro aninhos, porque estou sempre atrasada, sempre colocando tanta coisa pra fazer no dia, ao ponto de não ter espaço para imprevistos, como ela continuar pedindo pra tomar água porque não quer dormir e eu querendo que ela durma pra que eu continue a trabalhar até de madrugada.

Parei.

Então, toda essa lavação de roupa suja e momento choração de pitanga é para dizer que o Alicia e Outros Papos vai ter que ficar quietinho (mais quietinho) por algum tempo. Na verdade, é o meu pedido de desculpas para os meus leitores, independentemente de quantos sejam.

Vou dar um tempo nas postagens aqui e nas mídias sociais para poder me organizar, efetivamente; me curar, me cuidar, voltar ao prumo. Mas vou voltar, sem dúvida, porque acredito no projeto, na ideia por trás dele: de auxiliar mães como eu, expatriadas, de primeira viagem, sem muita ajuda por perto, com os perrengues da maternidade, sem abdicar da própria existência e sem ficar maluca. Uma boa dica é não fazer o mesmo que eu, enfiando mil coisas pra fazer no mesmo dia!

Obrigada por ter lido este post até o final. Gratidão por ter me acompanhado até aqui. Fique com os posts já publicados, deixe um comentário, se quiser compartilhar como está sendo a sua vida, e aguarde novidades, em breve, porque voltaremos!

Já estou com saudades…

 

 

 

 

 

 

12 Comments

  1. Camilla

    Alêêê, apesar de eu adorar seguir o blog você tem a nossa benção para jogar mesmo a toalha. Quase chorei várias vezes. Isso porque me identifico. Muito! Não da pra acharmos que sozinhas podemos tudo. Essa realmente é a maior mentira que foi vendida como verdade, mas só gera ansiedade. Principalmente nas mulheres. Isso é estatístico. Não sei exatamente o motivo… se seriam os hormônios ou mesmo o fato de termos sido criadas para uma missão mais simples, maior (não em tamanho ou quantidade, com certeza!).
    Querida, estamos juntas e em barcos tão parecidos. Conte comigo pro que precisar!

    1. Alessandra Cayley

      Camila, linda! Só vi seu comentário agora! Obrigada, querida, por tudo! Você sabe bem o quanto eu amo este blog (vários brainstorms juntas, né?!) mas há de se ter maturidade pra saber quando parar e colocar as coisas no lugar pra continuar fazendo direito. Eu sei da sua correria, você sabe o quaaaaanto te admiro, seu trabalho, sua garra, mas preste atenção em você, não acredite mais nesta mentira deslavada. Obrigada pelo apoio, ele é mútuo! Bjo grande!

  2. Te admiramos muito…apoiada ….curta uma qualidade do seu tempo….vá tomar café e olhar p o nada….vc merece,descanse👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

  3. Alessandra Cayley

    Oi, Ana Paula, obrigada! Você sabe que eu acabei de ler seu comentário e me veio lágrima nos olhos, porque ontem acabei indo comer uma pizza com a família (porque não tinha comida pronta em casa) e, enquanto esperava meu marido estacionar, ao invés de pegar o celular e começar a checar as mídias sociais feito louca, como vinha fazendo (enquanto minha filha estava no iPad), eu parei e olhei a garoa que estava caindo. E me deu uma paz tão grande. Só de ver a chuva caindo, de me conectar com o agora. Foi quando percebi a loucura que a minha vida estava…obrigadão pela dica, foi valiosíssima, vou fazer e recomendo. Cuide-se por aí, também e obrigada pelo carinho!

  4. Vamos sentir falta dos posts e dicas!!!
    Inté a volta!

    1. Alessandra Cayley

      Obrigada, Mi! Mas não é goodbye, só tempo de ajeitar a casa e as minhocas na caixola! 😉 bjs

  5. Juliana Braz

    Ale, como é lindo ver a maneira genuína e humana que você se expõe. Certamente, 90 entre 100 mulheres vivem essa crise. É a dinâmica louca da sociedade atual, principalmente os grandes centros, que nos cobra o tempo todo e traz sempre esse sentimento de “não damos conta do recado”. Não damos mesmo! Não temos que dar! Você tem nosso total apoio. Somos gratas por existirem pessoas como você, que nos aproxima do que somos como humanos e felizmente limitados. Obrigada!

    1. Alessandra Cayley

      Ju, querida, nossa, que mensagem mais maravilhosa a sua. Obrigada, obrigada, obrigada pelas palavras, por ter vindo aqui ler meu blog, você que eu sei, é tão ocupada, tem uma vida tão ou mais doida que a minha. E, por isso, minha admiração. Tudo o que você falou aí mando de volta para você. Obrigada, mesmo. Mas acho importante essa exposição, a humanização da coisa, porque tem muito conteúdo na Internet que faz a gente se sentir ainda pior. Essa nunca vai ser a intenção deste espaço! Bjão!

  6. Fernanda Ziza

    Te admiro e seu desabafo foi muio corajoso e humano! Se cuide e volte com brilho total!
    Bjsss

    1. Alessandra Cayley

      Gratidão, Fernanda! Obrigada mesmo, vou voltar, sim. Cabeça cheia de planos, já! Se cuide por aí, também!

  7. Luciana

    Eu adorei este post! Curioso q eu tava justamente pensando num trabalho que estou preparando sobre empoderamento feminino e um dos tópicos é exatamente os vários papéis da mulher e como gerenciar o tempo.
    Não existe milagre! É uma vc falou mesmo. De vez em quando tem q jogar a toalha. Acho que não tem nada errado com isso!
    Aproveite bem esse tempo de pausa pra vc e pra sua família! É muito bom ler textos como estes pra gente desmistificar esse lance da mulher maravilha. Obrigada e enha uma boa recarga de baterias.

    1. Alessandra Cayley

      Obrigadão, Luciana. Você não imagina o quanto eu relutei para fazer este post, o quanto eu tentei não ter de fazê-lo, mas acho que essa é a pior coisa que a mulher faz consigo mesma: achar que é falha porque não consegue dar conta de tudo. Mas tudo é um conceito tão abrangente, né? A gente já dá conta de muita coisa! Obrigada por me entender e pelo apoio. Sucesso no seu projeto e aceito dicas de como gerenciar melhor o meu tempo, se as tiver! 🙂

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