Alimentação, Coisa de Mãe, Desabafo, Filhos, Virei mãe

Meu pitaco na Semana Mundial da Amamentação

No último dia da Semana Mundial da Amamentação eu também quis dar o meu pitaco. Porque acho o tema importantíssimo e foi a parte da maternidade com que mais tive dificuldade. Se meu relato puder evitar o sofrimento de outras mulheres na ânsia de conseguir amamentar, já valeu o post.

Como boa mãe de primeira viagem que adora ler, assim que soube que estava grávida, corri na livraria. Sai de lá carregada de livros sobre maternidade, este “portal mágico”, universo desconhecido que estava prestes a adentrar.

Tinha livro contando sobre o desenvolvimento do bebê, semana a semana, livro sobre técnicas para “ensinar” seu filho a dormir, livro que cuidava da dieta, tanto da sua quanto da dele, que ensinava massagens para ter um filho calminho e dicas de brincadeiras para deixá-lo espertão.

Queria aprender tudo o que não sabia para ser uma mãe perfeita, mas quando o tópico era amamentação, confesso que lia sem grande interesse porque, come on, toda mulher nasceu apta ao feito, certo? E eu sempre tive peitos grandes: garantia de que viraria a vaca leiteira!

Quanta ignorância.

Cara, eu penei. E quase endoideci.

Como tudo começou

Apesar de ter entrado em trabalho de parto, tive a Alicia por operação cesariana, porque ela não virou. E, apesar de sentir dor de contração para nada, fiquei feliz porque ouvi dizer que esta é uma forma de o corpo entender que é hora de começar a produzir leite.

Não vou entrar em detalhes mas, em resumo, meu primeiro leite, o tal do colostro, não “desceu” na quantidade necessária para saciar minha filha.

Já no dia seguinte ao parto, eis que entra uma enfermeira no quarto, pedindo para que eu assinasse um termo autorizando o hospital a suplementar a alimentação da minha filha com fórmula porque “eu não havia sido capaz de amamentar”. Pronto. Aquelas palavras não sairiam da minha cabeça dali em diante e marcariam minha relação com o processo de amamentação para sempre. Capaz. Capaz. Capaz. Eu teria de ser capaz, tinha de provar de que seria capaz. Mas por que não? O que foi que eu fiz de errado? Alguém pode explicar? O que posso fazer para reverter a situação?

O relato da Fernanda Gentil no Instagram reflete exatamente como me sentia, o quanto me questionava, e o que me motivou a escrever este post: para acrescentar, não para polemizar.

Caí na armadilha

Do momento que saí do hospital até os seis meses de vida da Alicia, dediquei a maior parte do meu tempo tentando aumentar minha produção de leite. Fazia de tudo para conseguir amamentar ou ao menos suplementar a dieta da Alicia com meu próprio leite. Sem medir sacrifícios, sem ponderar riscos. Uma louca guiada por hormônios, instinto primitivo de mãe querendo alimentar a cria e ego ferido.

Diziam que canjica dá leite, lá ia eu pra cozinha. Beber leite dá leite? Entornava dois litros por dia, fora água, porque diziam que quem amamenta precisa estar hidratada.

Diziam para que eu “ficasse calma” na hora de amamentar. Eu começava calma e saía nas nuvens quando conseguia alimentá-la sem suplementação, mas frustrada quando tinha de reforçar com fórmula.

De cápsulas que prometem ajudar no fluxo, tomava de três tipos: Domperidone, um remédio para o estômago mas que descobriu-se ajudar na produção de leite, fenugreek (feno grego) e blessed thistle (cardo-santo). Eram 40 cápsulas. Por dia.

Comprei extrator de leite elétrico (Medela), usando-o, religiosamente, entre as mamadas da Alicia.

Ficava quarenta minutos por extração ouvindo aquele motorzinho infeliz: trrr, trrr, trrr. E me lembro, até hoje, da felicidade que era quando conseguia extrair 60 ml, 80 ml por extração. Carregava o líquido precioso com cuidado, para não derramar nenhuma gotinha, e levava-o até a geladeira. Ficava admirando o estoque mirrado, mas suado, que a Alicia devorava em uma mamada!

Porém, a suplementação por fórmula foi aumentando à medida que a Alicia crescia, até chegar a 100% quando ela tinha seis meses e perdeu o interesse pelo peito.

Foi doído admitir que era hora de parar. Mas, nessa época, a extração já não chegava a 20ml.

Foi difícil porque eu atrelei o ser mãe com poder amamentar, o que hoje eu percebo, é loucura, não é justo fazer isso consigo mesma, nem com seu casamento. Depois de um tempo, meu marido me confessou que não suportava  chegar em casa e me ver ali, na nossa mesa de jantar, grudada àquela maquininha, que sugava meu peito dia e noite (fora o barulhinho). Eu parecia uma viciada, só falava em amamentação, quanto de leite eu havia conseguido extrair no dia. E quando a produção não era satisfatória, ele sabia que seria uma noite daquelas.

E a inveja que eu sentia quando via outras mães amamentando, especialmente minhas amigas chinesas, quase sem peito, amamentando há anos! Era a morte.

No Canadá, há muito incentivo para que as mães amamentem. No hospital que tive a Alicia, St. Michael’s Hospital, em Toronto, por exemplo, os pais são convidados a participar de uma palestra, no segundo dia após a chegada do bebê.

Confesso que foi meio cena de filme: pais exaustos, sem dormir, parecendo zumbis, colocados numa salinha sentados em círculo, para uma conversa sobre o tema e instruções básicas para as mamães. As mulheres, ainda doloridas, inchadas, com as mães de primeira viagem ainda tentando entender o que estava acontecendo, onde haviam se enfiado. Os pais, quietos, só ouvindo, do ladinho da mulher para aquele apoio moral. De verdade, nem eu nem meu marido nos lembramos de nada do que nos foi passado, mas ao menos serviu para sabermos que estávamos todos no mesmo barco.

Já em casa, podemos contar com uma consultora que vem até sua casa para te ensinar a amamentar no seu próprio ambiente (isso em Thornhill, onde moro). Há também, as clínicas de amamentação (aqui, link para as de Toronto), que você pode ir a qualquer hora. Tudo gratuito.

Enquanto todo esse suporte é, sem dúvida alguma, fantástico, pode causar efeito contrário ao esperado, gerando uma frustração imensa naquelas mães que, depois de tudo isso, ainda não conseguem amamentar. Rola cobrança interna, comparação, sentimento de impotência.

No meu caso, nunca soube porque não consegui: a Alicia teve uma pegada perfeita logo que nasceu, meus bicos não racharam, o processo de amamentar nunca foi doloroso, pelo contrário, sempre foi muito prazeiroso. Tanto que chegava a me questionar se não seria esse o problema: falta de sofrimento!

O que aprendi

Hoje, olhando pra trás, admito que exagerei, mas não foi consciente. Essa minha loucura por conseguir amamentar pegou até a mim de surpresa. Eu, que sempre fui tão prática, que nem com filho sonhava, que dirá amamentar. Mas esse é um dos truques que a maternidade (e os hormônios!), prega na gente: revela nuances da sua personalidade que você nem sabia que existia.

Eu entrei na empreitada sem plano B, cheia de pré-conceitos descabidos, sem preparação para o caso de não conseguir ir adiante com a amamentação, por acreditar que “seria automático”, como disse Fernanda. Mas já vimos que não é.

Também não sabia meus direitos: nem pensei que poderia ter recusado a introdução tão precoce da fórmula (esta foi a prática do hospital onde fiz o parto da Alicia, mas não é norma, variando de hospital para hospital). Tive medo de deixá-la passar fome e já começar a ser tachada de “má mãe” ainda no hospital.

A importância da Semana Mundial da Amamentação

Acho uma ideia maravilhosa termos uma semana toda dedicada ao tema, colocando o assunto na roda, ajudando a desmitificá-lo.

Especialistas batem na tecla de que toda mulher é capaz (ah, essa palavra!) de produzir leite, porque somos seres mamíferos. Só que somos mamíferos estressados, vivendo numa sociedade cada vez mais distante do que é natural, da natureza. Percalços podem acontecer, como dor, infecções, peito rachado, ou o leite pode simplesmente se recusar a sair em quantidade suficiente. E daí, desculpa, não vem a ciência dizer pra mim ou pra você que passou por isso que “toda mulher é capaz de amamentar”. Quantas mulheres dizem que o leite delas secou? Foi culpa delas, fizeram de propósito?

Já passou da hora de tirarmos esse peso das nossas costas, e dos nossos peitos.

Tá olhando o quê? Nunca viu uma mamadeira?! 😉

Amamentar é maravilhoso, em todos os ângulos da coisa: quando dá certo, é uma delícia sentir o leite descer, ver a carinha do seu filho alimentando-se “de você”, a conexão, o “olho no olho” que tanto se fala. É o melhor alimento que seu filho pode receber.

Mas você não será menos mãe se não passar por tudo isso. Concordo com a Fernanda quando ela diz que ainda dá para fazer o olho no olho, conectar-se com o seu filho mesmo dando a mamadeira.

E, cá pra nós: quantas vezes a gente não vê mãe checando mensagens no celular enquanto amamenta o filho ou conversando sem dar um pingo de atenção ao momento? Porque, vamos combinar: toda mamada não vai ser um “momento mágico” e não há “magia” que dure depois de estar amamentando por dois, três anos, quando o filho já tem dente, você já tem o segundo, o terceiro filho..

Em resumo, encontre você, sua forma de se conectar com seu filho no momento que o estiver alimentando, seja no peito ou na mamadeira. Aqui em casa, a mamadeira tem nome: “Nezinho” (por causa desse vídeo sobre os diferentes choros das crianças e seus significados, sendo que o da fome soa como um “Né”. Começamos a brincar com o termo e assim ficou).

A Alicia está com quase cinco anos e ainda mama quando acorda. Pede o “Nezinho” e temos todo um ritual para tomá-lo. É o nosso momento. Quando vai acabar? Quando ela quiser, quando for oportuno.

Se eu tivesse um segundo filho, contanto que meus hormônios não resolvessem sequestrar minha sanidade novamente, eu faria tudo diferente. Sim, ainda tentaria amamentar, mas não cairia nessa história de que se é menos mãe por não ser “capaz” de produzir leite. Eu e minha filha já desbancamos a teoria, pelo menos aqui em casa!

Uma maternidade leve, feliz e sem pré-conceitos para você!

 

 

 

 

2 Comments

  1. Que delícia ler seu texto! E que alegria em saber que mães perfeitas não existem (ufa, achei que fosse só eu)! Precisamos tirar esse mito de que amamentar é natural! Por que as pessoas não falam que não é? Por que as pessoas não falam que dói? Por que as pessoas não falam que sim, é a parte mais difícil e mais pesada da maternidade? Precisa sim, de muita ajuda, orientação, rede de apoio, determinação, e mesmo assim ainda não é garantido que terá sucesso! Obrigada pelo seu texto…quem sabe no ano que vem eu consigo contar minha história <3

    1. Alessandra Cayley

      Oi, Dani, querida! Que bom que gostou! E, que nada, mãe perfeita is so yesterday! Melhor imperfeita e feliz do que perfeita mas estressada! Esperando para saber sua história com a amamentação, quando você estiver pronta para dividi-la com a gente. Bjao

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