Outros Papos, Primeira vez, Testamos (e Aprovamos?), Virei mãe

O que aprendi jogando boliche com minha filha de três anos

Como eu postei no Instagram, ontem fomos numa festa de aniversário da filha de uma amiga nossa, num salão de boliche. Fazia um século desde a última vez que coloquei um sapato daqueles engraçados que a gente usa para entrar na pista.

Havia me esquecido que eu adoro boliche e como é divertido jogar com uma turma. Mas nunca havia imaginado em levar uma criança de três anos para jogar. E que eu me divertiria e aprenderia tanto ao jogar com ela. Foi uma lição atrás da outra.

A festa foi para uma menina de cinco anos e todas as crianças convidadas eram da escola dela, portanto a maioria da mesma idade. A Alicia era a mais novinha. Claro que elas não interagiram muito, pela diferença da idade. Também, eu era a única imigrante da festa, com sotaque diferente, o que sempre acontece quando me encontro com estes amigos e os amigos deles.

Lição número um: ser a mais nova e a que ninguém quer brincar não incomodou nem um pouco a minha filha. Ela estava feliz por ter a mim e ao pai.

Já, ser a imigrante com sotaque diferente e com quem as pessoas só conversam por cinco minutos porque eu não faço parte da turma me incomoda, sempre. Só que, desta vez, eu estava feliz por ter a minha filha e o pai dela (mas o deixei em paz papeando com o amigo que ele não via há tempos).

Na hora de jogar boliche, notei que todas as crianças arremessavam a bola e rapidinho viravam as costas para a pista, voltando para o que estavam fazendo, sem se preocupar com o resultado da jogada: quantos pinos iriam acertar ou se não iriam acertar nenhum. A Alicia mesmo queria era jogar a bola na pista. Este era o jogo para ela, a brincadeira, a diversão. O que iria acontecer, não importava.

“Ensinando” a Alicia a jogar boliche. Adorei este recurso para ajudar as crianças a nortear a bola na pista. Até que idade podemos usar….?

Ela não entrou no jogo com nenhuma pré-concepção, com nenhuma expectativa. Nós é que a “ensinamos” que ela deveria olhar para a pista e ver quantos pinos acertou, porque este é o “jogo”. Mas com isto vem a ansiedade de ganhar, acertar, perder, ter que esperar a próxima jogada para fazer melhor. Entra a competição, com os outros e consigo mesmo. Entra a alegria ou a frustração de ter feito certo ou errado.

Daí a lição número dois: deixar de “ensiná-la” como jogar, mas sim entrar no jogo dela. Eu achei aquilo fantástico e não quis impor o “nosso” jogo, mas curtir o dela. Jogar a bola e virar as costas. Ao invés de ficar olhando no placar quando seria a nossa vez, fomos terminar de brincar de ciranda, como estávamos fazendo, até alguém gritar o nosso nome.

O salão de boliche fica numa cidade sonolenta, a uma hora de distância da nossa casa, em Uxbridge. Um salão com cara de mofo, de cenário de filme de turma de adolescentes de uma pacata cidade norte-americana dos anos 90. Limpo, arrumadinho, mas de forma alguma aceitável para uma festa de criança da idade da minha filha, ao menos para mim e meus pré-conceitos arraigados. Minha amiga me confidenciou, com orgulho, que não gastou quase nada na festa. Foi o mesmo que me dizer que fogo queima ou água molha ou que gelo é gelado. Óbvio.

Ela sabe que eu gastei uma graninha na festa da Alicia. Fogo queima.

O jogo acabou e os adultos informaram as crianças quem ganhou, como se elas estivessem mui preocupadas em saber.

Da pista, passamos para a mesa para as crianças comerem. Foram servidas fritas (deliciosas), pizza (nem tocamos, parecia um pedaço de pneu pintado de amarelo, de tão grossa), legumes (a cenoura estava com um gosto estranho, a couve-flor, fresquinha) e suco.

Não sei se é sempre assim, mas nas festas de criança desta minha amiga os adultos nunca são servidos. Basicamente, beliscamos o que as crianças deixam no prato.

Depois veio o bolo. Cantamos parabéns, comemos e fomos ver a aniversariante abrir os presentes. Terminado, hora de ir embora.

No geral, achei a festa sonsa, faltou um quê de “uau”, sei lá, não me pareceu festa de criança. Mas sempre tenho esta impressão, em toda festa canadense que vou. Talvez porque eles não batem palmas quando cantam “Parabéns para Você..?

Ao sair, a Alicia no meu colo, recebo a terceira lição: ela vira para mim, no maior entusiasmo e manda: “Mommy, I had so much fun!” (“Mamãe, como eu me diverti!”)

Resumo da ópera: não importa quem gastou mais ou menos, o que importa são as memórias que aquele momento criou para nossos filhos. De verdade, fiquei aliviada.

Eu estava com medo de que depois do festão que ela teve, ano passado, eu havia criado um monstro. Que nenhuma outra festa iria fazê-la feliz, fosse para ela ou outra criança.

Mas novamente, minha filha de três anos me deu uma lição: viva o momento, chegue na festa esvaziada de expectativas, faça o melhor com o que lhe for oferecido e se estiver com a pessoa que mais ama no mundo do lado, você tem tudo o que precisa.

Sendo assim, ontem fomos para uma festa de arromba.

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