Desabafo, Outros Papos, Primeira vez, Toronto

Desabafo de expatriada e Marielle, Presente em Toronto

Vou avisando que hoje o papo é política, é desabafo. É chamar pra conversar, pra tentar fazer senso do que está acontecendo no nosso Brasil.

Estou escrevendo do coração, sem edição, desculpe, hoje vai ser assim. Talvez volte para consertar, talvez não. Neste espaço é assim, porque quero que seja assim. Tipo boteco, praça da esquina (das de antigamente, onde ainda dava para sentar e conversar sem medo de ser roubado, raptado, assassinado): pega uma cadeira, se acomoda, sinta-se à vontade para palpitar.

Também estou dividindo com vocês fotos do movimento organizado pelos brasileiros em Toronto, hoje, domingo, dia 18, na frente do espaço Nathan Phillips Square, em homenagem à vereadora carioca, Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Eu fui, me emocionei demais com a organização da coisa e com o número de gente que angariou. Sem ser para festa de samba ou de futebol, nunca vi tantos brasileiros deixarem suas casas para manifestarem-se sobre algo que aconteceu no Brasil. Sem contar que estamos em março, um frio lascado ainda, por aqui.

Até quinta-feira passada nunca havia ouvido falar em Marielle Franco, o belo trabalho que desempenhava em prol dos negros, dos mais carentes, do pessoal das favelas, do movimento LGBT. Infelizmente, eles só chegaram aos meus ouvidos, e aos ouvidos do restante do mundo, porque a vereadora foi assassinada no Rio de Janeiro, no dia anterior, executada com nove tiros, que tiraram não só a sua vida, mas a de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, que nem motorista era, só estava fazendo um bico porque estava desempregado e não conseguia se recolocar.

Desde então, não consigo parar na tragédia pessoal, das famílias, coletiva: no filhinho de dois aninhos de Anderson, na mulher, na filha de 19 anos de Marielle, no que essas nove balas realmente acertaram: além das cabeças de Marielle e Anderson, também a esperança do povo que Marielle defendia. E as nossas aqui em Toronto, milhares em Nova Iorque, na Flórida, na Turquia, na Irlanda, em Portugal, na França, na Espanha, no Japão, nos Emirados Árabes. Acertaram todos os brasileiros em todas as partes do mundo. Os que viraram expatriados, que tiveram o “privilégio” de escapar (vivos) da violência que assola o país, e a maioria, que não tem meios nem para comprar uma passagem de ônibus e mudar de Estado. Mas ir para onde?

Na quinta-feira, eu publiquei um post sobre o esforço que expatriados fazem para manter a língua portuguesa viva em suas famílias, em suas crianças. E daí as duas coisas juntaram-se na minha cabeça, e o temor que eu venho tendo em levar a minha família para o Brasil desde que as coisas começaram a degringolar no país nos últimos quatro, cinco anos.

Infelizmente, esse temor não é somente meu. Ele se repete em cada história que ouço, de gente que acabou de chegar, em gente que está longe há tempos. A gente se sente fazendo roleta-russa com as nossas famílias: temos que voltar ao Brasil pelo amor à família, pela saudade que sentimos, pelo desespero de ficar longe das nossas raízes, mas temos medo de estar expondo nossos filhos a esta violência tão descabida. E explicar a situação, tentar “convencer” seu companheiro que não é brasileiro, a ir com você ou deixar a família dele(a) fazer a viagem? Você faria? E como levá-los? E como deixá-los em saber se voltaremos? Mas como nunca mais ir, desistir do Brasil?

Se este post é somente para chorar as pitangas?

Não. É para pedir a cada um dos brasileiros que chegaram até aqui para não desistirem do nosso Brasil, da ideia de que pode haver mudança. Como uma amiga minha disse hoje, talvez não cheguemos a vê-la mas temos que plantar a semente para os nossos filhos ou os filhos dos nossos filhos. Não podemos jogar a toalha. Porque é isso mesmo o que os mandantes deste crime bárbaro querem: que a gente desista, que a gente se cale.

Aí vai vir alguém e dizer: “Pra você é fácil dizer isso, daí de Toronto, esse lugar tão lindo, seguro. Vai falar isso aqui, onde moramos, no meio do fogo cruzado”. Tem razão. Pra mim é mesmo fácil. Eu poderia esquecer que o Brasil e seus problemas existem, mas simplesmente não consigo, porque amo o meu país. Porque não sofro como quem está aí, no fogo cruzado, servindo de escudo humano nessa guerra estúpida criada pela desigualdade social, pela corrupção, pela falta de incentivo à educação, mas ainda sofro. Do jeito que só expatriado sabe como é. Quero voltar ao meu país e saber que vou sair daí viva. Quero saber que meu amigo não terminou a conversa no WhatsApp porque a bateria do celular acabou ou porque não teve tempo, e não porque levaram celular da mão dele ou pior, o levaram.

Quero parar de ter medo de não falar com algum familiar por uns dias e logo pensar que algo ruim aconteceu. Que quando souber que alguém morreu, que seja por doença, porque caiu e quebrou a cabeça, mas não que tenha tido os miolos estourados por uma bala perdida. Quero parar de tentar explicar a densidade absurda da barbárie que reina em nosso país para os gringos, que só conhecem algo parecido nos filmes de Hollywood.

Quero ver meu país em paz. Porque todos os que vivem aí merecem ter a vida boa que temos aqui. Porque somos iguais.

Vamos às ruas, vamos inundar a internet não de ódio e polarização, mas de um pedido uníssono de mudança, para todos.

Vi que já estão tentando difamar a Marielle, numa tentativa de justificar o injustificável, resultado do embrutecimento sem parâmetros de uma sociedade. Parem pra pensar: é o mesmo que apoiar um genocídio, o extermínio do lado de um povo em guerra “santa” (aliás, o nome, por si só, já é um descabimento), a guerra na Síria.

A questão não é a Marielle. A questão é a falência do sistema, a morte da fé, o assassinato da esperança, o não valor na vida, qualquer vida.

Eu não sei o que posso fazer pelo meu país daqui ou daí, mas não vou desistir de ter fé e de abrir a boca para pedir, porque fé sozinha não resolve nada. É preciso AÇÃO. REFORMA POLÍTICA e TOLERÂNCIA ZERO À CORRUPÇÃO já é um bom começo. Mais incentivo à educação, para a formação de cidadãos conscientes dos seus direitos, mais igualdade social, adeus ao jeitinho.

Que os próximos encontros de brasileiros no espaço Nathan Phillips Square, em Toronto, seja para comemorar uma nova era no nosso Brasil, uma nova história, e que ela ganhe os noticiários do mundo, novamente, e que tenham muito orgulho de contá-las aos gringos. E que a gente possa voltar pra casa, porque não há país mais maravilhoso do que o nosso.

Desculpem o desabafo.

 

 

 

 

Fotos: Alessandra Cayley

 

 

 

 

 

 

 

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